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Cultura natural

Talento e trabalho é uma combinação que produz uma arte diferenciada. É o que comprovam as obras do artista plástico Ricardo Costa, que transita facilmente entre o profano e o sagrado.

No cerrado dorense (Dores do Indaiá – Minas Gerais), as árvores que um dia morrem renascem em arte. Os tortuosos e grossos galhos sugerem formas que o olhar reconhece e o dom lapida. Compactos troncos tornam-se homens, animais, altares. O ainda inexplorado e charmoso “verdete”, que enche de um surreal verde água os caminhos de terra da redondeza é, agora, matéria-prima para a sensibilidade. As pedras do Rio Indaiá deixam as margens e o leito para assumirem nova função: tinta natural que matiza esculturas.

Bem se percebe que temos um artista. Escultor por excelência e autor de telas notáveis, Ricardo Costa nasceu em Dores do Indaiá, em 29 de dezembro de 1972, e descobriu-se artista ainda criança, assumindo, na adolescência, essa condição. Algumas atividades profissionais o familiarizaram com os tipos de madeira – seu material predileto – e o possibilitaram exercitar o ofício.

Ricardo destaca-se nas artes plásticas não somente pelo seu talento, mas pela constante busca por aperfeiçoamento e pelo interesse por informações que enriqueçam seu trabalho. Visitas em mostras e exposições importantes na capital mineira, por exemplo, e a leitura de volumes especializados são diferenciais na atividade de Ricardo que, a propósito, é autodidata. “A gente sempre tem alguma coisa para aprender”, conta.

Reaproveitamento é um conceito presente no trabalho do artista e independe, inclusive, da pauta ambiental em voga. Sua relação com as matérias-primas demonstra conhecimento e profundo respeito por sua constituição. Mas não é só isso. As formas que brotam das esculturas e que resultam das pinceladas são uma prova de que as influências barroca e impressionista dialogam harmoniosamente, produzindo um estilo próprio, o que, por sua vez, denota uma personalidade artística sólida, segura, mas nem por isso definitiva. Afinal, as manifestações culturais não são algo estável, inerte, mas organismos vivos, dinâmicos, em constante mutação. Mais do que isso, precisam ser vistas, experimentadas, compartilhadas.

A fim de romper barreiras geográficas e abrir espaço para seu trabalho, Ricardo já expôs em algumas cidades, além de Dores do Indaiá, como Belo Horizonte, Bom Despacho, Divinópolis, Ouro Preto. Nesta, o artista realizou um sonho: mostrou suas peças na terra de Aleijadinho, grande referência. A publicidade também se deu na televisão, com veiculação de matérias exclusivas nos canais Globo (TV Integração e GloboNews), Band e Alterosa.

 

Arte engajada

Um dos projetos mais recentes de Ricardo Costa demandou três meses de intenso trabalho. Encomendado pela Prefeitura de Dores do Indaiá, o monumento Índio Tapuia (5,6 m de altura mais 1,2 m de base) é uma homenagem aos primeiros habitantes da região rural de mesmo nome, um povo bravio, cuja história local é pouquíssimo conhecida. Localizada a 13 quilômetros da sede urbana, a gigante escultura, produzida em concreto, é um resgate histórico e um marco turístico. O local foi escolhido estrategicamente. Além da belíssima paisagem, ali ainda é possível encontrar vestígios da passagem dos indígenas que comprovam sua existência, como pequenas ferramentas rústicas e fragmentos de utensílios, como vasilhames de cerâmica. “As pessoas precisam conhecer mais sobre este povo”, afirma Ricardo, que pretende doar a um futuro museu dorense todas as peças históricas que já encontrou em suas andanças pelos campos.

Também de proporções grandiosas, feito em cedro, Cristo Ressuscitado (4 metros de altura e 3,5 de envergadura), chama a atenção dos devotos católicos na recém-reformada Igreja do Rosário, que fazem sua adoração na nave lateral, uma espécie de capela improvisada.

A mais nova descoberta artística de Ricardo, que rendeu peças diferenciadas, com marcada influência da cultura greco-romana, é o verdete, nome popular da rocha glauconita, encontrada em alguns trechos do complexo montanhoso da Serra da Saudade. A intenção do artista é estimular o trabalho de artesãos, viabilizando o uso do material através de um processo de beneficiamento. “Através da arte, o verdete, que é típico de nossa região, pode se tornar um meio econômico para as pessoas”, planeja Ricardo.

 

Por Ciça Sá

Ateliê de Ricardo Costa

Rua Mato Grosso, 520 – Juiz de Fora

Dores do Indaiá – MG

Telefone: (37) 3551-3921

 

FOTOS/LEGENDAS:

Ricardo Costa (Crédito: Arquivo pessoal)

Uma das esculturas mais imponentes de Ricardo Costa é a “A vida e o tempo” (jatobá com licença ambiental, 2,6 m).

DSCN4026 (Crédito: Cecília Sá)

Índio Tapuia compõe cartão-postal natural de Dores do Indaiá.

DSCN1208, DSCN1894 e DSCN1923. (Crédito: Cecília Sá)

Cheias de cores e detalhes, telas retratam cenas tipicamente interioranas.

PICT5712 (Crédito: Arquivo pessoal)

Apropriação do verdete como matéria-prima torna o trabalho de Ricardo ainda mais peculiar.

tiploc

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