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CAUSOS DE UM ESTUDIANTE DE MEDICINA NO PARAGUAY – LA CARRETERA

Era um dia atípico, aonde chovia e fazia sol! Nós brasileiros brincamos: “sol e chuva, casamento da viúva”, e mais tarde vim descobrir que no Paraguay o jargão é outro: “sol y lluvia, bodas del diablo”. Pensei comigo, cruz credo, nem casaram direito e já meteram a sogra no meio da confusão.

Estava prestes a adentrar o país, onde um dos idiomas oficiais é o Guarani, e a primeira palavra que aprendi desta língua indígena foi: ae Che rohayhu”  que significa – Eu te amo! Expressão direcionada a minha linda esposa, companheira e colega de sala na Universidade – senhorita Nathália, para minha amada filha Yasmin, ao meu adorado filho Mateus, e do mesmo modo à “Lulu” uma simpática e fiel cachorrinha da raça York Shire, antes que me esqueça, cachorrinha em espanhol se diz “perrita”.

A declaração proferida em patoá se deu pelos laços familiares, e obviamente por estarem comigo nesta experiência arrojada, que foi sair dos rincões de Minas Gerais e romper até terras estranhas, lugar altamente peculiar, tríplice fronteira – Brasil, Paraguai e Argentina.

Eram meados de 2019, parte da manhã ou mañana. A universidade para estudar já estava escolhida, agora necessitava encontrá-la, ter um contato físico para sentir e ressaltar se era ali que gostaríamos passar seis anos de nossas vidas, dedicando a aprender coisas da medicina e criar os filhos.

Momentos que antecediam a entrada no Paraguai, estava eu e a patota, na rodovia ou carretera – BR 277, em nosso modesto carro branco ou coche blanco, próximo à aduana brasileira. A Alfândega possui duas partes: a que chega ou llega ao país vizinho, situa-se do lado baixo do terreno, e a que volta ou volve localiza-se na face alta.

A princípio vários aspectos chamaram a atenção. A enorme fila de carros que me separava da aduana, cerca de três quilômetros aproximadamente. Era um trânsito selvagem, desorganizado, onde pessoas paravam veículos por conta própria, como se fossem autoridades de trânsito na rodovia, a fim que outros automóveis que se encontravam em estrada contigua (lateral), pudessem adentrá-la, furando a enorme fileira. Cientifiquei-me posteriormente que se tratavam de indivíduos delinquentes, que cobravam dos infratores uma pequena taxa ou arancel, para consumarem a velhacaria.

Outro fato que me deixou apreensivo foram os homens que se aglomeravam no meio da rodovia, estes em sua maioria paraguaios, com finalidade de abordarem motoristas mais incautos, para os mais diversos objetivos, escusos ou não.

Entretanto, o mais triste foi assistir, passo a passo, a mendicância no decorrer do trajeto. Claro que não esperava um pari passu na tríplice fronteira, mas ali, naquele momento, ver ou mirar, aquela legião de pedintes macambúzios, aleijados, desfigurados, maltrapilhos, em família, foi de cortar o coração ou corazón.

Para minha surpresa, na boca da caçapa, cheio ou lleno de câmeras e flashers, um big brother da vida demarcatória, uma senhorinha manquitola, porém, altiva, cantante, dançante, estendeu seu braço “parestésico”, e com sua mão anquilosada me entregou uma flor em retribuição à parca esmola que lhe dei, antes da aventura realmente começar.

 

Alex Moreira Rocha

Escritor

Editor da Revista Tiploc 

Bacharel em Direito

Policial Civil aposentado

Membro da Academia Bom-Despachense de Letras

Estudante de Medicina da UPE FRANCO

Estes causos terão periodicidade semanal, e ao término do curso de Medicina ora em andamento, se Deus der saúde, sabedoria, e sua graça, eles se transformarão em um livro, que eventualmente servirá de norte para pretensos estudantes de Medicina no Paraguai e curiosos em geral.