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A SAZONALIDADE DAS CORES E A PERCEPÇÃO PAREIDOLÓGICA DO MUNDO DO PINTOR

A arte, sobretudo a plástica; é uma percepção aguçada sob a qual nascem certos viventes que, sofrendo de uma salutar apofenia, sintonizam manchas, sons e sensações! Alçado ao status de artista plástico, este indivíduo para se afirmar no planeta tem de deixar sua “terceira certidão”, ou seja, manifestar sua trina personalidade sobre o orbe circundante: mundo que se traduz em sons, cores e sensações. É um “mediador plástico” que transforma essas três características em algo palpável para os demais viventes.  O artista plástico é, sobretudo, sob essa égide, no meu caso, um revelador de mundo onde manchas, borrões de tinta, se fazem necessárias para se concretizar mesmo que, de forma anômala.

Das artes plásticas, escolhi a pintura paisagística. Pintar, sintonizar manchas e cores, e desfrutar durante essa lida, a maravilhosa sensação de ver surgir numa tela, um mundo inteiro repleto de significados que podem ou não serem interpretados pelos observadores. É uma arte! E como toda arte, ela coloca sentido onde não há um sentido comum. E o mundo ordinário não nos satisfaz. O colorimos com nossas cores, o revelamos com o prisma do nosso olhar. Tornamos o processo pareidológico uma poesia, para “vender” nossa ideia de realidade.

Para descrever a arte da pintura, não é possível descrever o meu processo pictórico que emprego pura e simplesmente. Por isso, a comparação com a poesia. Apofenia Poética! Somos, sobretudo, poetas das cores, poetas das sensações que conseguimos penetrar nos corações incautos, que são aliciados para a arte da observação. Sempre, somos ponderados a nos descrever como indivíduos que padecemos de uma anomalia perceptiva. Porque? Porque para mim, sobretudo a pintura é uma terapia. “Debujo” sob este viés cognitivo de revelar a mim mesmo e as dores que me fazem um indivíduo neurotípico.

E a pintura terapêutica sugerida por Klaus Conrad e desenvolvida por uma grande parte de psicólogos e psiquiatras, tem alcançado significativos resultados na concepção de diagnósticos nas principais alas psiquiátricas em hospitais do mundo inteiro. Ou seja, mesmo que não estejamos empregando nenhum processo terapêutico durante o processo de pintura, o trato com as cores e as manchas que com elas organizamos, nos imprimem uma clara observação de como nos percebemos no mundo e como nele agimos. E mesmo que poética, a apofeniaé “o fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios. É um importante fator na criação de crenças supersticiosas, da crença no paranormal e na construção da ilusão de ótica sob a qual a pintura se enquadra.

Uma vez adquirida essa percepção de como nossos padrões psíquicos projetam um mundo à parte durante o processo de pintura, elegemos um trato com as cores, com os pincéis e vamos curando a sazonalidade das ideias com as quais o processo terapêutico se concretiza. E é este mesmo processo que inúmeros terapeutas têm aplicado para perceber como seus pacientes psiquiátricos projetam seus mundos e como estes os revelavam, tecendo por conseguinte, um diagnóstico preciso e um tratamento digno para cada indivíduo percebido dentro do espectro das anomalias psiquiátricas.

Criamos então, nesse processo de pintar, nossa própria trajetória dentro do espectro humano da observação da realidade e de como ela nos afeta e nos faz interagir com a realidade que causa nossas dores e por conseguinte, nossas curas.

Wagner Cruz

Mineiro de Bom Despacho, Wagner Cruz é músico, escritor e membro fundador da ABDL. É também autor de: O Poeta e a Gaivota – O Curandeiro – Apolônio e os Pardais.

 

tiploc

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