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Nossas Histórias
Um Conto de Natal Bondespachense

Todo ano no Natal, em minhas colunas jornalísticas, costumo escrever alguns contos de Natal, que denomino “bondespachenses”, com personagens, cenas e ambientes de nossa cidade. Este ano, estava comentado tal fato com um conterrâneo que é escritor. E falávamos sobre belíssimos contos de natal da Literatura Universal, desde o nosso Machado de Assis passando por consagrados escritores de Portugal, França, Inglaterra, Itália, Rússia e outros países.
Antigamente havia até uma antologia só com contos de natal, que eu na me cansava de ler graças à emoção e ao lirismo que suas histórias traziam, principalmente sobre o Natal dos pobres, dos humilde e dos despossuídos, que, às vezes, eram mais belos do que os das ricas mansões, de palácios e castelos de nobres. Então meu amigo e conterrâneo me deu uma sugestão:
- Por que você não publica um Conto de Natal de um autor bondespachense a quem você sempre tem prestigiado em suas crônicas?
E fomos lembrando nossos escritores: Pedrinho Couto, Itamar Oliveira, Jacinto Guerra, Dilermano Cardoso, Wagner Cruz, Maria Ângela Couto, Santina Menedes, Geraldinho da Helena do Lado,Eulália Araújo, Mário Morais, D.Lídia, D.Liquinha, Padre Jaime, Cel Benjamim do Samuel, Cel João Bosco de Castro, Geraldinho Rodrigues do Engenho do Ribeiro, Alírio Silva,Stael Gontijo Bernardes, Geovane, Dauro Silva, Sônia Queiroz, Patrícia Araújo, Vivalde Couto, João Gontijo,João Batista e outros e outros mais.
Naquela tarde, depois da conversa com meu amigo, cheguei em casa e resolvi adotar a sugestão dele: Publicar um Conto de Natal de um escritor bondespachense, em minha coluna na Tiploc, como maneira de divulgar e prestigiar autores de nossa terra. Felizmente tenho quase todos os livros de escritores que aqui nasceram, vivem ou viveram. Procura que procura encontrei um conto de um de meus autores preferidos: Alírio Silva.
Telefonei para a casa dele a fim de obter autorização para publicar seu conto, em parte , já que meu espaço aqui é limitado. Mas ele estava no sítio e fiquei de ligar-lhe na hora do almoço. Agora estou aqui transcrevendo a segunda parte de seu conto, sem prejuízo do todo, justamente a segunda parte sobre o natal de uma família pobre que fala também da frustração do personagem Zé com o Papai Noel, que na sua infância não lhe trouxe o presente que lhe pediu.
Mas vamos lá, ao conto do Alírio Silva, de que gostei muito e espero que meus leitores gostem também, pelo excelente retrato que faz de uma família humilde que pode ser tanto bondespachense como de qualquer lugar do mundo.

Uma Bola no Natal
Alírio Silva

-Ce qué qui quenta água, Zé?
-Huff...Não pricisa. Tomo frio memo. É bão para discansá.
-Zé, os minino ,ta tudo durmino. A gente pudia saí pra comprar os trem, né? Dona Veva cuida dos bichinho, se eles acordá. Cê trouxe os cobre do déci´tercero? Aqui na cidade é bão , né Zé? Tem até esse tal de déci´tercero. Se num fosse isso, a gente não dava conta do Papai Noel pros minino. Deus é grande.
Saíram. Rua acima, olhavam as vitrinas brilhantes, os brinquedos caros, os embrulhos bem feitos e os sorrisos contagiantes. Os sinos das igrejas, de quando em quando, espalhavam pela cidade festiva o lembrete da boa Nova. Natal, Natal...Músicas belíssimas, sugestivas. E tristes, às vezes. Zé matutava com seus botões, no tempo de criança. Certo Natal , ele pedira ao Papai Noel uma bola de capotão.O Papai Noel não lhe trouxe a bola e Zé ficou revoltado: Por que seria?”...
-Anda , Joaninha, tô cansado e quero durmi logo. Nós temo qui í lá no Sô Bernardo, qui vende uns trem mais baratinho...
-Pera´í , Zé, dexa eu vê aquela arve de Natal. Óia Zé, qui beleza de arve. Lúiz de tudo quanto é cor...
-A loja de Seu Bernardo estava apinhada de gente. Gente como o Zé que sabia que era Natal.
-“Aquela corneta de sete real, sô Bernardo,” Sô Bernardo, aquele caminhãozinho de quinze...”
-Joaninha foi relacionando os meninos e escolhendo um presentinho para cada um. De vez em quando, o Zé entrava no assunto , ponderando pela escolha de coisa mais barata.
-Pro Tunico mais o Pedrinho , aquela bola de vinte e cinco. Uma dá pros dois...Aquela canoinha pro Joãozinho, pra ele brincar na inxorrada. Pra Maria aquele buneca de saia. Pra Leca o fugãozinho de plástico.
Quando, à meia noite, soaram os sinos de todas as catedrais do mundo, Zé dormia tranqüilo, sonhando que de calças curtas e pés descalços, brincava com uma bola novinha de capotão.
( “Uma Bola de Natal- O Prazer da Leitura-Alírio Silva-Ed Thesaurus-Brasília-DF)

(O autor desta coluna é professor de Português, pesquisador de nossa história e ecologista por bom senso e paixão). (tadeudearaujoteixeira@yahoo.com)

 

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