O consórcio foi inventado para realizar o desejo de ter carro próprio. Surgiu em 1962, quando a indústria automobilística lançava os primeiros automóveis nacionais.
Naquele tempo não havia financiamentos a perder de vista e os juros eram maiores do que os de agora. Além disso, mesmo os carros mais modestos tinham preços inacessíveis.
Para superar essas dificuldades e realizar o sonho de consumo da época, um grupo de funcionários do Banco do Brasil criou o consórcio. A idéia era boa e simples, prosperou e hoje há mais de 12 milhões de consorciados no Brasil. Não apenas para comprar carros, mas também para motos, barcos, casas.
Veremos as vantagens e desvantagens que esse sistema tem em relação a outras formas de aquisição de bens de consumo durável.
Compra mediante
financiamento
Digamos que um trabalhador deseja comprar um televisor de R$ 3 mil. Se fizer um carnê de 24 parcelas, com juros de 5% ao mês, pagará prestações de R$ 217,41. No final o televisor de R$ 3 mil sairá por R$ 5.217,90.
Compra mediante
consórcio
Agora, digamos que esse trabalhador tenha 23 colegas interessados em comprar o mesmo televisor. Eles podem formar um grupo em que – durante 24 meses – cada um contribuirá com R$125,00. Dessa forma, arrecadarão R$ 3 mil por mês. O dinheiro é usado para comprar um televisor e ele será sorteado entre os membros do grupo. Repetindo o processo a cada trinta dias, no final de 24 meses todos terão recebido seu televisor. Nenhum juro será pago. É essa idéia simples que está por trás de todos os consórcios. Entretanto, os consórcios atuais são administrados por empresas, não por amigos. As empresas cobram taxas que variam de 14% a 30% do valor da prestação. Portanto, na prática, a prestação acima seria de mais ou menos R$ 150,00. Assim, o valor realmente pago pelo televisor seria de aproximadamente R$ 3.600,00.
Compra mediante
poupança
Digamos, porém, que o trabalhador resolva poupar para comprar o televisor à vista. Se poupar R$ 117,96 durante 24 meses, no final terá desembolsado R$ 2.831,04. Mas – com os juros recebidos – o valor montará a R$ 3 mil. Portanto, suficiente para comprar o televisor à vista, sem pagar juros.
Diferenças entre
financiamento,
consórcio e poupança
Comparando o total desembolsado nos três casos, é fácil verificar que poupar é o melhor negócio (R$ 2.831,04). A segunda opção é o consórcio (R$ 3.600,00). O financiamento é a solução mais cara (R$ 5.217,90).
Mas há uma “pegadinha”. Ao poupar, o consumidor adia o consumo por 24 meses, mas ao financiar, recebe o bem imediatamente. Quanto ao consórcio, nele o prazo de recebimento depende da sorte. Na média, ocorrerá em 12 meses (no nosso exemplo).
Extrai-se daí uma das lições mais importantes do mercado de consumo: juro é o valor em dinheiro que o consumidor paga para ter hoje o que só poderia ter no futuro. Dito de outra forma: juro é o preço que se paga para antecipar o futuro.
Dessa lição advém outra: quanto mais bens de consumo a pessoa financia ao longo da vida, menor será o patrimônio que formará. No nosso exemplo, no final de 24 meses, aquele que poupou poderia comprar quase dois televisores novos, mas quem financiou só terá um. Mesmo assim, envelhecido e desvalorizado.
Quanto ao consórcio, ele não é poupança nem financiamento. Ele soma as desvantagens dos dois sem as vantagens de nenhum: tem a taxa de administração que equivale à taxa de juros; tem a espera pelo sorteio, que equivale à espera do poupador.
O prazo para
recebimento do bem
Desconsiderando o aspecto financeiro, o elemento mais importante na decisão do consumidor é o tempo que levará para receber o bem. Por isso os bancos e administradoras costumam dizer o seguinte: se você precisa do bem agora, a melhor solução é o financiamento; mas – se você não tem pressa – a melhor solução é o consórcio.
Esse raciocínio é certo na primeira parte. Entretanto, é grosseiramente errado na segunda. Parte correta: se você precisa do bem imediatamente, a solução é financiar (ou arrendar). Parte errada: se você não precisa do bem imediatamente, a melhor opção não é o consórcio, mas a poupança.
Invés de entrar no consórcio e pagar uma taxa de administração, faça depósitos mensais na poupança. Enquanto o consórcio lhe cobrará a taxa de administração, a poupança lhe pagará juros e lhe dará liquidez e flexibilidade.
Se você puder esperar até juntar todo o dinheiro para comprar o bem, ótimo. Mas, se vier a precisar do bem com urgência, poderá usar a poupança já feita para pagar a entrada e diminuir os juros e o prazo do financiamento. Além disso, se ficar apertado, poderá deixar de depositar. Numa emergência, poderá sacar o dinheiro sem deságio e sem esperar nada.
Portanto, adquirir consórcio é decisão financeiramente irracional. As escolhas racionais estão entre o financiamento (ou arrendamento) de um lado e a poupança do outro. Consórcio – apesar da tradição e da propaganda – não é boa idéia.
Mas, se você ainda
acredita no consórcio...
Em primeiro lugar, verifique o nome da empresa no Banco Central e nos PROCONs. Há muitas empresas clandestinas e irregulares no mercado. Os golpes e falências são comuns.
Em segundo lugar, escolha a empresa que tiver a menor taxa de administração. Elas variam de 14% a 30%.
Em terceiro lugar, verifique o que acontecerá se você quiser – ou tiver – que desistir do consórcio. Muitas empresas só lhe devolverão o dinheiro 60 dias após o encerramento do consórcio ou quando o seu número for sorteado. Isto é bom para elas, mas é péssimo para você.
Portanto, se ainda não tiver assinado o contrato com essa cláusula abusiva, não assine. Mas, se já assinou, e agora precisa do dinheiro, vá ao PROCON ou procure um advogado. Eles saberão o que fazer para exigir os seus direitos na Justiça.