Título de capitalização não é investimento. Também não é poupança. Tampouco é jogo que preste. Como negócio, só é bom para os bancos. Para você, é péssimo. Como loteria, é a pior que existe no país. Por isso, se você já comprou um título desses, desista dele o mais rapidamente possível. Se ainda não comprou – ótimo – não compre. E, se o gerente do seu banco tentar lhe convencer do contrário, mude de gerente e de banco.
Os títulos de capitalização são um engodo. Um ardil mediante o qual os bancos – com astúcia e pouca força – transferem para o bolso deles o dinheiro que está no seu bolso.
Conto do vigário
legalizado
Os títulos de capitalização são legalizados, registrados e autorizados. Mesmo assim, têm a natureza típica de contos do vigário. Ou seja, são planejados para tomar dinheiro de pessoas ingênuas mediante promessa de vantagens elusivas.
Como são negociados nos balcões de instituições bancárias de renome, o consumidor tende naturalmente a acreditar no negócio. É a sua perdição, pois a enganação já começa aí. Os títulos de capitalização não são emitidos pelos bancos. Tampouco são garantidos por eles. Aliás, título de capitalização não tem garantia.
Entretanto, essas informações não são evidenciadas na propaganda. Os títulos de capitalização — vá se saber por que — são considerados uma modalidade de seguro. Por isto são autorizados pela SUSEP (Superintendência de Seguros Privados), não pelo BACEN (Banco Central). Eles não são ilegais, como o jogo do bicho, os bingos, os jogos de azar e os cassinos. Mas, pelos prejuízos que causam ao consumidor, deveriam ser proibidos.
Anatomia do engodo
Este embuste tem quatro esteios: a) a fachada proporcionada por um banco bem conhecido; b) o atrativo de uma poupança disciplinada; c) a promessa de fazer seu dinheiro crescer (capitalizar); e d) a esperança de ganhar prêmios.
Tudo ilusão!
O título não pertence ao banco e não é garantido por ele. Ademais, não capitaliza, não é poupança e não tem liquidez. Quanto à disciplina da poupança forçada, há formas de colocá-la a seu favor e não contra você, como acontece nesse caso.
Poupança forçada
Os vendedores lhe dirão que os títulos são bons porque o banco retirará o dinheiro automaticamente de sua conta. Portanto, você fará uma poupança forçada.
Grandes coisas!
Você poderá fazer a mesma coisa com a caderneta de poupança. A diferença é que a caderneta de poupança tem liquidez, não sofre descontos e começa a render imediatamente.
Matemática da
descapitalização
No mundo dos investidores, capitalizar é transformar juros em capital. Veja o exemplo da poupança: a cada mês o dinheiro depositado cresce 0,5%. No mês seguinte os juros deste mês passam a render juros. Isto é capitalizar. Mas não é isto o que acontece com os títulos de capitalização.
Títulos de capitalização não pagam juros. Ao contrário, o valor que você deposita sofre um desconto imediato. Geralmente da ordem de 12%, mas que pode chegar a 70%. Quanto mais tempo você deposita, maior o seu prejuízo.
Por exemplo, se você fizer 60 depósitos mensais de R$ 100,00 na caderneta de poupança, no final terá formado um capital de R$ 6.977,00. Se fizer o mesmo depósito num título de capitalização, seu capital se reduzirá a R$ 5.155,84. Um prejuízo de R$ 1.821,16, ou 30,4%. Isto significa uma descapitalização mensal de -0,53%.
Esse é o preço que você pagará para ter o duvidoso privilégio de concorrer a alguns prêmios furrecas e ver o banco embolsar parte do seu dinheiro a título de administração. Portanto, não é nem próprio nem honesto falar em capitalização.
Prêmios
Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, ele enganou os índios com miçangas, espelhos e bugigangas. Por suas quinquilharias os portugueses recebiam madeira, ouro, pedras preciosas.
Os vendedores de título de capitalização fazem a mesma coisa. Pegam seu suado dinheirinho, tiram dele uma gorda fatia e colocam no bolso. Em troca, lhe acenam com a possibilidade de um prêmio mixuruca que a maioria jamais ganhará.
Os índios ficavam satisfeitos com os espelhos e apitos que recebiam em troca do ouro. Talvez você fique satisfeito em entregar 30% dos seus investimentos em troca da possibilidade de ganhar prêmios.
Nesse caso é bom que você saiba que os títulos de capitalização cobram mais caro e rendem menos do que a loteria federal.
Por isso, se o seu negócio é jogar, escolha outro jogo entre tantos que há. A aposta em título de capitalização não vale a pena. Prefira as loterias oficiais. Qualquer uma delas é melhor do que esses títulos.
Poupar, investir
ou descapitalizar
Se você tem veia de investidor, considere investir em CDB, títulos do governo, ações. Se você não tem veia de investidor, mas quer fazer um pé-de-meia, abra uma caderneta de poupança. Isto é investir e poupar.
Quanto aos títulos de capitalização, deixe-os para os ingênuos e para os otários.
Mas se você já caiu no conto do título e sente-se traído pela propaganda enganosa, busque amparo na justiça. Os títulos de capitalização são legais. Mas isto não significa que possam ser vendidos mediante falsas promessas.
A propaganda e o vendedor devem dizer o que lhe está sendo vendido: um jogo cujo valor da aposta – juntamente com a taxa de administração – serão abatidos do seu depósito mensal. O troco o banco guardará para você até o vencimento. Entretanto, não pagará juros por ele. Ademais, se você sacar antes do vencimento, poderá perder até 70% do valor depositado.
O vendedor lhe disse tudo isto?
Se não disse, pode ter ofendido o Código de Defesa do Consumidor na parte que trata de propaganda enganosa.
Procure um advogado ou vá até o PROCON. Talvez você tenha sido ingênuo na hora de comprar. Mas isto não lhe obriga a ficar quieto enquanto — sob falsos pretextos — continuam carreando o dinheiro do seu bolso para o bolso do banqueiro.
Buscar reparação na justiça é seu direito. Os bancos não podem tomar o seu dinheiro sob a falsa promessa de lhe proporcionar capitalização e poupança quando estão, de fato, lhe cobrando uma taxa de administração para usar seu dinheiro no pagamento de apostas.
Fernando Cabral é vereador, escritor, advogado
e servidor do Tribunal de
Contas da União.